segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Tag - The Fiery Heart- Richelle Mead

Tag - The Fiery Heart- Richelle Mead


Capítulo Um


Adrian

Não vou mentir. Entrar em um quarto e se deparar com sua namorada lendo um livro de nomes de bebês pode meio que fazer seu coração parar.


“Eu não sou nenhum expert,” comecei, escolhendo minhas palavras com cuidado “Bem, na verdade, eu sou. E eu tenho certeza de que há certas coisas que devemos fazer antes de você precisar ler esse livro.”

Sydney Sage, a namorada mencionada e a luz da minha vida, nem ergueu os olhos, embora a suspeita de um sorriso tenha brincado em seus lábios. “É para a iniciação,” ela disse com naturalidade, como se falasse em fazer as unhas ou ir ao mercado ao invés de se juntar a um grupo de bruxas “Eu tenho que ter um nome ‘mágico’ para elas usarem durante os encontros.”

“Certo. Nome mágico, iniciação. Apenas mais um dia na vida, hum?” Não que fosse alguém que pudesse dizer, tendo em vista que sou um vampiro com habilidades fantásticas, ainda que complicadas, de cura e compelir pessoas.

Dessa vez, eu ganhei um sorriso completo, e ela levantou seu olhar. A luz do sol da tarde infiltrando-se pela janela do meu quarto chegou aos seus olhos e revelou um brilho âmbar dentro deles. Eles se abriram em surpresa quando repararam nas três caixas empilhadas que eu carregava. “O que é isso?”

“Uma revolução na música” eu declarei, pondo-as com reverência no chão. Abri a de cima e expus um gramofone. “Eu vi um aviso de que algum cara estava os vendendo no campus.” Abri uma caixa cheia de discos e retirei o Rumours do Fleetwood Mac. “Agora posso ouvir música em sua mais pura forma.”


Ela não pareceu impressionada, surpreendentemente para quem achou meu Mustang 1967 – o qual ela chamou de Ivashkinator – uma espécie de santuário sagrado. “Eu tenho certeza de que a música digital é mais pura quanto pode ser. Isso foi um desperdício de dinheiro, Adrian. Eu posso por todas as músicas dessas caixas no meu celular.”

“Você pode por todas as outras seis caixas em meu carro no seu celular?”

Ela piscou atônica e então ficou desconfiada “Adrian, quanto você pagou por tudo isso?”

Eu espantei a pergunta “Ei, eu ainda posso pagar o carro. Quase.” Eu, pelo menos, não tinha que pagar o aluguel, já que o lugar era pré-pago. Mas ainda tinha várias outras contas. “Além do mais, tenho um orçamento maior para esse tipo de coisa, agora que alguém me fez parar de fumar e cortar o happy hour.”

“Está mais para dia feliz.”* Ela disse maliciosamente “Estou cuidado da sua saúde.”

Sentei-me a se lado na cama. “Assim como estou cuidando de você e do seu vício de cafeína.” Foi um combinado entre nós, formando a nossa própria espécie de grupo de apoio.
*O happy hour é quando as pessoas se juntam para beber, geralmente no final da tarde quando saem do trabalho. Sydney fez um trocadilho, indicando que o happy hour do Adrian durava o dia todo.

Eu parei de fumar e diminui para uma bebida por dia. Ela largo sua dieta obsessiva por uma quantidade saudável de calorias e diminuiu para apenas um copo de café por dia. Surpreendentemente, ela teve mais dificuldade com isso do que eu tive com álcool. Nesses primeiros dias, achei que teria que coloca-la numa reabilitação para cafeína.

“Não era um vício” ela resmungou, ainda amarga “Era mais como… uma escolha de vida”

Eu ri e puxei seu rosto para um beijo, e simples assim, o resto do mundo desapareceu. Não havia livros de nomes, nem discos, nem hábitos. Havia apenas ela e o contato de seus lábios, e a maneira extraordinária em que eles conseguiam ser suaves e ardentes ao mesmo tempo. O resto do mundo a achava dura e fria. Apenas eu sabia a verdade sobre a paixão e ferocidade presas dentro dela – bem, eu e Jill, a garota que podia ver dentro da minha mente por causa de um laço psíquico que compartilhamos.

Enquanto eu deitava Sydney na cama, eu tive aquele rápido, fugaz pensamento que eu sempre tinha, do tabu sobre aquilo que fazíamos. Humanos e vampiros Morois pararam de se misturar quando a minha raça se escondeu do mundo na Idade das Trevas. Nós o fizemos por segurança, decidindo ser melhor que os humanos não saibam de nossa existência. Agora, o meu povo e o dela (aqueles que sabiam sobre os Moroi) consideram esse relacionamento errado e, entre outras coisas, escuro e amaldiçoado. Mas eu não me importava. Eu não me importava com mais nada exceto com ela e a maneira que tocá-la me deixava louco, mesmo que sua calma e estável presença acalmasse a tempestade que me destruía por dentro.

Isso não significava que exibíamos isso, entretanto. Na verdade, nosso relacionamento era um segredo bem guardado, um que exigia muitas escapadas e planos calculadamente planejados. Mesmo agora, o relógio corria. Esse era o nosso dia da semana de sempre. Ela tinha um estudo independente no último período do dia no colégio, um comandado por um professor tranquilo que a deixava sair mais cedo correr até aqui. Nós tinhas uma preciosa hora de amassos ou conversas – geralmente amassos, mais frenéticos por conta da pressão sobre nós – e então voltava para a colégio particular, na hora em que sua irmã pegajosa e odiadora-de-vampiros Zoe.

De alguma forma, Sydney tinha um relógio interno que lhe dizia quando o tempo acabava. Acho que era parte de sua inerente habilidade em se fazer milhares de coisas ao mesmo tempo. Não eu. Nesses momentos eu ficava focado em tirar sua blusa e se eu ia conseguir passar o sutiã dessa vez. Até agora, sem sucesso.

Ela se sentou, bochechas coradas e o cabelo dourado despenteado. Ela era tão linda que fazia minha alma doer. Eu sempre desejei desesperadamente que eu pudesse pinta-la nessas horas e imortalizar aquele brilho em seus olhos. Havia uma suavidade neles que eu raramente via outras vezes. Uma total e completa vulnerabilidade em alguém que normalmente era tão fechada e analítica no resto de sua vida. Mas embora eu fosse um pintor decente, captura-la na tela estava além das minhas habilidades.

Ela recolheu sua blusa marrom e a abotoou-o, escondendo o brilho de renda turquesa com o traje conservador que ela gostava de se esconder. Ela havia feito inspecionado seus sutiãs no mês passado, e embora eu sempre fique triste em vê-los desaparecer, me deixou feliz em ver que estavam ali, esses secretos pontos de cor em sua vida.
Enquanto ela caminhava para o espelho da minha cômoda, eu convoquei um pouco do poder do espírito dentro de mim para dar uma olhada em sua aura, a energia que envolvia todo ser vivo. A magia me trouxe uma leve onda de prazer dentro de mim, e então eu vi, aquela luz brilhante em volta dela. Era a mesma de sempre, um amarelo leve equilibrado com um roxo muito mais rico de paixão e espiritualidade. Um piscar de olhos, e sua aura se foi, assim como a alegria mortal do espírito.

Ela terminou de pentear os cabelos e olho para baixo. “O que é isso?”

“Hmm?” Me postei atrás dela e envolvi meus braços em sua cintura. Então eu vi o que ela pegou e enrijeci: brilhantes abotoaduras cravejadas de rubis e diamantes. E simples assim, a calidez e alegria que sentia foram substituídas por uma gélida e familiar escuridão. “Elas foram um presente pra tia Tatiana alguns anos atrás.”

Sydney ergueu um e o estudou com olho clínico. Ela sorriu. “Você tem uma fortuna aqui. Venda esses e terá orçamento para uma vida. E todos os discos que quiser.”

“Dormiria numa caixa de papelão antes de vendê-los.”

Ela notou minha mudança e se virou, sua expressão preocupada. “Ei, eu estava brincando.” Sua mão gentilmente tocou meu rosto. “Está tudo bem. Tudo está bem.”

Mas não estava bem. O mundo era de repente um lugar cruel e sem esperança, vazio com a perda da minha tia, rainha dos Moroi e a única parente que não me julgava. Eu senti um caroço em minha garganta e as paredes pareciam se fechar em mim conforme me lembrava da forma que ela havia sido estaqueada para morrer e como eles desfilaram aquelas imagens sangrentas por ai tentando achar seu assassino. Não importava que a assassina estivesse trancada e condenada à execução. Não iria trazer a Tia Tatiana de volta. Ela se fora, para lugares nos quais não poderia segui-la – pelo menos, não ainda – e eu estava aqui, sozinho e insignificante e patinando…

“Adrian.”

A voz de Sydney era calma, porém firme, e devagar, eu me arrastei para fora do desespero que vinha tão rápido e pesado, uma escuridão que havia aumentado durante os anos conforme mais usava o espírito. Era o preço por esse tipo de poder, e essas mudanças tornaram-se cada vez mais frequentes recentemente. Foquei-me em seus olhos, e a luz retornou ao mundo. Eu ainda sofria por minha tia, mas Sydney estava aqui, minha esperança e âncora. Eu não estava sozinho. Não era mal compreendido. Engoli, eu assenti e lhe dei um fraco sorriso conforme a mão negra do espírito me soltava. Por hora.

Eu estou bem.” Vendo a dúvida em seu rosto, pressionei meus lábios em sua testa. “De verdade. Você precisa ir, Sage. Irá fazer Zoe se preocupar, e se atrasar para o sua reunião de bruxas”

Ela me olhou com preocupação por um momento mais e então relaxou um pouco “Okay, mas se precisar de alguma coisa—“

“Eu sei, eu sei. Ligo no Telefone do Amor”

Isso trouxe seu sorriso de volta. Nós recentemente adquirimos secretamente celulares pré-pagos que os Alquimistas, que organização para qual ela trabalhava, não seria capaz de rastrear. Não que eles rastreassem seu celular principal – mas eles certamente poderiam se achassem que algo suspeito estava acontecendo, e não gostaríamos de uma trilha de mensagens e ligações.

“E eu vou chegar à noite” Adicionei.

Nisso, sua expressão endureceu novamente. “Adrian, não. É muito arriscado.”

Outro benefício do espírito era a habilidade de visitar as pessoas em seus sonhos. Era uma maneira prática para se conversar já que não tínhamos muito tempo no mundo acordado – e porque não ficávamos conversando muito tempo no mundo acordado nesses dias – mas como qualquer uso do espírito, era um risco à minha sanidade. A preocupava muito, mas considerava algo pequeno para poder ficar com ela.

“Sem argumentos” avisei. “Quero saber como as coisas estão. E eu sei que você vai querer saber como as coisas vão comigo.”

“Adrian—“

“Serei breve” Eu prometi.

Ela concordou relutantemente – não parecendo feliz – e eu a acompanhei até a porta. Enquanto cruzávamos a sala de estar, ela parou no pequeno terrário próximo à janela. Sorrindo, ela se ajoelhou e bateu no vidro. Dentro havia um dragão.

Não, sério. Tecnicamente era uma callistana, mas raramente usávamos esse termo. Normalmente o chamamos de Hopper. Sydney o havia adquirido de algum reino demoníaco como uma espécie de ajuda. Sobretudo, parecia querer nos ajudar comendo toda a comida porcaria do meu apartamento. Ela e eu estávamos ligados a ele, e para manter sua saúde, tínhamos que sair com eles em turnos. Desde que Zoe havia se mudado, entretanto, meu apartamento tinha se tornado sua principal residência. Sydney levantou a tampa do tanque e deixou a pequena criatura dourada escorregar em sua mão. Ele a olhou com adoração e não pude culpa-lo por isso.

“Ele está fora há um tempo.” Ela disse. “Pronto para uma pausa?” Hopper poderia existir em sua forma viva ou ser transformado numa pequena estátua, o que ajudava a evitar perguntas desconfortáveis quando pessoas apareciam. Só ela poderia transforma-lo, entretanto.

“É. Ele fica querendo comer minhas pinturas. E eu não o quero me vendo te dando um beijo de boa noite.”

Ela fez uma leve carícia em seu queixo e disse as palavras que o transformavam em estátua. A vida era certamente mais fácil essa forme, mas, novamente, sua saúde exigia que ele viesse a sua forma vez ou outra. Isso, e o carinha teria crescido em mim.

“Eu o levarei um pouco” Ela disse, deslizando-o em sua bolsa. Mesmo estando inerte, ele ainda levava a melhor estando perto dela.

Livre de seu olhar lustroso, e dei a ela um longo beijo de tchau, um que estava relutante em terminar. Segurei seu rosto em minhas mãos.

“Plano de fuga numero dezessete” eu lhe disse “Fugir e abrir uma barraca de suco em Fresno.”

“Por que Fresno?”

“Soa como o tipo de lugar no qual as pessoas tomam muito suco.”

Ela sorriu e me beijou novamente. Os “planos de fuga” era uma brincadeira corriqueira entre nós, sempre rebuscados e enumerados sem ordem em particular. Eu geralmente os inventava na hora. O que era triste, na verdade, era que eles eram mais pensados que qualquer outro plano que tivemos. Ambos estávamos dolorosamente conscientes que nós vivíamos mais no agora, com um futuro que era qualquer coisa, menos claro.

Quebrar esse segundo beijo foi difícil também, mas ela finalmente o fez, e a observei se afastar. Meu apartamento parecia mais escuro em sua ausência.

Busquei o resto das caixas no carro e examinei os tesouros de dentro delas. A maioria dos álbuns era dos anos sessenta e setenta, com um pouco dos oitenta aqui e ali. Não estavam organizados, mas não dei atenção a isso. Uma vez que Sydney superasse posição que eles eram um desperdício de atenção, ela não conseguiria se segurar e terminaria os separando por artista ou gênero ou cor. Por hora. Eu pus o gramofone na sala de estar e escolhi um álbum aleatoriamente: Machine Head do Deep Purple.

Eu tinha mais algumas horas até o jantar, então me abaixei na frente de uma cavalete, encarando a tela em branco enquanto pesava como lidar com meu trabalho atual em pintura à óleo avançada: um auto retrato. Eu não precisava ser exatamente semelhante. Poderia ser abstrato. Poderia ser qualquer coisa desde que fosse uma representação minha. E eu estava travado. Eu poderia ter pintado qualquer pessoa que eu conhecia. Talvez não conseguisse capar o olhar exato de êxtase de Sydney em meus braços, mas poderia pintar sua aura ou a cor de seus olhos. Poderia ter pintado a face saudosa, frágil, da minha amiga Jill Mastrano Dragomir, uma jovem princesa Moroi. Poderia ter pintado rosas flamejantes em tributo a minha ex-namorada, que quebrou meu coração e ainda assim conseguia me fazer admirá-la.

Mas eu mesmo? Eu não sabia o que fazer comigo. Talvez fosse apenas um bloqueio artístico. Talvez eu apenas não me conhecesse. Conforme encarava a tela, minha frustração aumentando, eu tinha que lutar contra a minha necessidade de ir até meu armário de licor e derramar uma bebida. Álcool não necessariamente fazia uma arte melhor, mas geralmente me inspirava alguma coisa. Eu praticamente já podia sentir o gosto da vodca. Eu poderia misturar com suco de laranja e fingir estar sendo saudável. Meus dedos coçaram e meus pés quase me levaram até a cozinha – mas eu resisti. A seriedade nos olhos de Sydney queimou em minha mente, e me foquei novamente na tela. Eu poderia fazer isso – sóbrio. Eu prometi a ela que tomaria um drink por dia, e me segurava firme nisso. E no momento, este um drink estava reservado para o fim do dia, quando estava pronto para ir pra cama. Eu não dormia bem. Nunca dormi na minha vida inteira, então eu tinha que usar qualquer ajuda que conseguisse.

Minha sobriedade resolveu não resultar numa inspiração, entretanto, e quando cinco horas chegou, a tela continuava nua. Levantei-me e estiquei os nós no meu corpo, sentindo o retorno daquela escuridão de cedo. Era mais raiva que tristeza, ligada com a frustração de não ser capaz de fazer isso. Meus professores de artes afirmam que tenho talento, mas em momentos como esses, eu me sinto como o preguiçoso que a maioria das pessoas sempre diz que sou, fadado a uma vida de falhas. Era especialmente deprimente quando pensava sobre Sydney, que sabia tudo sobre tudo e poderia exercer qualquer carreira que quisesse. Ponde de lado o problema vampiro-humano, eu imaginava o que eu poderia a oferecer a ela. Não podia sequer pronunciar metade das coisas que a interessava muito, menos discuti-las. Se alguma vez pudermos ter uma vida normal juntos, ela estaria fora pagando as contas e eu ficaria em casa limpando. E nem nisso eu era bom. Se ela apenas quisesse voltar para casa à noite como um colírio para os olhos com cabelo bom, eu poderia até fazer isso razoavelmente bem.

Sabia que esses medos me corroendo eram alimentados pelo espírito. Nem todos eles eram reais, mas eram difíceis de lidar. Deixei a arte de lado e sai pela porta, esperando achar uma distração na noite que chegava. O sol se punha lá fora e o inicio da noite de inverno de Palm Springs mal pedia por uma jaqueta leve. Era o melhor horário do dia para os Moroi, quando ainda havia luz, mas não o suficiente para ser desconfortável. Poderíamos aguentar alguma luz solar, diferentemente dos Strigoi – os vampiros mortos-vivos que matam por sangue. Luz solar os destrói, o que era uma vantagem para nós. Nós precisávamos de toda ajuda que podíamos conseguir na luta contra eles.

Dirigi até o Vista Azul, um subúrbio a apenas dez minutos do centro onde ficava Amberwood Prep, o colégio privado que Sydney, e o resto do nosso grupo heterógeno, frequentavam. Normalmente a Sydney era a escolha do grupo para motorista, mas a honra duvidosa recaiu sobre mim esta noite quando ela escapou para seu encontro clandestino com a convenção. O grupo todo esperava no meio-fio do dormitório feminino quando cheguei. Inclinando-me sobre o banco do passageiro, abri a porta. “Todos a bordo” disse.

Eles pularam dentro. Eram cinco deles, mais eu, trazendo-nos a um sete da sorte, se Sydney estivesse aqui. Logo quando viemos para Palm Springs, éramos apenas quatro. Jill, a razão de todos estarmos ali, deslizou para o meu lado e lanço-me um sorriso.

Se Sydney era a principal força de calma, Jill era a segunda. Ela tinha apenas quinze anos, sete anos mais nova que eu, mas havia uma graça e sabedoria que já irradiava dela. Sydney podia ser o amor da minha vida, mas Jill me entendia de uma maneira que ninguém mais podia. Era meio que difícil não ser assim, com esse laço psíquico. Ele havia sido forjado quando usei o espírito para salvar sua vida ano passado – e quando digo “salvar”, falo sério. Tecnicamente, Jill esteve morta, por menos de um minuto, mas morta de qualquer forma. Eu usei o poder do espirito para realizar uma miraculosa façanha de cura e traze-la de volta antes que a próxima palavra pudesse reivindicá-la. Esse milagre nos ligou com uma conexão que a permitia sentir e ver meus pensamentos – embora não o contrário.

Pessoas trazidas de volta dessa forma são chamadas de ‘beijadas pela sombra’, e apenas isso já seria o suficiente para ferrar qualquer criança. Jill tinha o acréscimo infeliz de ser uma das duas últimas pessoas restantes numa linhagem real Moroi moribunda. Essas eram notícias novas para ela, e sua irmã, Lissa – a rainha Moroi e boa amiga minha – precisava de Jill viva para poder manter-se no trono. Aqueles que se opunham ao governo liberal de Lissa, consequentemente, queriam Jill morta, para poderem invocar uma antiga lei familiar requerendo um monarca que tenha outro membro familiar vivo. E então, alguém teve a ideia brilhantemente questionável de mandar Jill se esconder no meio de uma cidade humana no deserto. Por que, sério, que vampiro gostaria de viver aqui? Certamente era uma pergunta que me fazia sempre.

Os três guarda-costas de Jill subiram no banco traseiro. Eles eram todos dampiros, uma raça nascida da mistura entre Moroi e humanos, herança de quando nossas raças partilhavam o amor livre. Eles eram mais fortes e rápidos que o resto de nós, sendo guerreiros ideias na batalha contra Strigois e realeza assassina. Eddie Castile era o líder do grupo, uma rocha confiável que estava com Jill desde o início. Angeline Dawes, a ruiva irascível, era levemente menos confiável. E por ‘menos confiável’ quero dizer ‘nem um pouco confiável’. Ela era incrível numa luta, entretanto. A nova adição ao grupo era Neil Raymond, conhecido como Alto, Peculiar e Chato. Por razões que não entendia, Jill e Angeline pareciam achar que seu comportamento sem-sorriso era um sinal de algum caráter nobre. O fato de ele ter ido a escola em Londres e ter um leve sotaque britânico parecia especialmente acender seus estrógenos.

O ultimo membro da festa permaneceu fora do carro, recusando-se a entrar. Zoe Sage, irmã de Sydney.

Ela inclinou-se para frente e encontrou os meus olhos com o seus marrons, quase como os de Sydney, porém com menos ouro. “Não tem espaço” ela disse “Seu carro não tem assentos o bastante”

“Não é verdade” eu disse a ela. Jill moveu-se para mais perto de mim sugestivamente. “Esse assento é para caber três. O último dono até acrescentou um cinto extra” embora isso fosse mais seguro para os tempos modernos, Sydney quase teve um ataque do coração por causa da alteração no Mustang de seu estado original. “Além do mais, somos uma família, não é?” Para facilitar nosso aceso a cada um, deixamos Amberwood acreditar que éramos irmãos ou primos. Quando Neil chegou, entretanto, os Alquimistas finalmente desistiram de fazê-lo da família, já que essa história estava começando a ficar ridícula.

Zoe encarou para o espaço vazio por vários segundos. Mesmo que o assento fosse espaçoso, ela ainda teria que ficar encostada em Jill. Zoe entrou na Amberwood há um mês, mas em plena posse de todos os incômodos e preconceitos que seu povo tinha sobre vampiros e dampiros. Eu os conhecia, pois Sydney os costumava ter demais. Era irônico porque o trabalho dos Alquimistas era manter o mundo dos vampiros e sobrenatural escondidos de seus companheiros humanos, cujo medo não seriam capaz de suportar. Os Alquimistas eram movidos pela sua crença de que membros da minha parte eram partes retorcidas da natureza, melhor separados e escondidos dos humanos, para que não tentemos os humanos com nossa maldade. Eles nos ajudavam de má vontade e eram muito úteis em situações como da Jill, quando arranjos com autoridades e responsáveis por escolas deveriam acontecer atrás dos das cortinas. Alquimistas destacam-se em fazer coisas acontecerem. É assim que Sydney havia planejado originalmente, facilitar o caminho de Jill e seu exílio, já que os Alquimistas não queria uma guerra civil Moroi. Zoe havia sido mandada recentemente como uma aprendiz e havia se tornado um tremendo pé-no-saco para escondermos nosso relacionamento.

“Não precisa vir se estiver com medo.” Disse. Provavelmente não havia mais nada que eu pudesse dizer que a motivaria tanto. Ela estava a caminho de se tornar uma super Alquimista, em grande parte para impressionar o pai das Sage, quem, conclui das histórias, era um tremendo babaca.

Zoe respirou fundo e se preparou. Sem mais uma palavra, ela subiu no carro e bateu a porta, ficando o mais longe possível. “Sydney deveria ter deixando o utilitário.” Ela murmurou um tempo depois.

“Onde está Sage, aliás? Ér, Sage mais velha.” Emendei saindo da escola “Não que eu não gosto de levar vocês por ai. Você deveria ter me trazido um cape preto Jailbat.” Acotovelei Jill, que me acotovelou de volta. “Você poderia afanar algo assim do seu clube de costura”

“Ela está fora fazendo algum projeto para a sra. Terwilliger.” Disse Zoe de maneira desaprovadora. “Ela está sempre fazendo algo para ela. Eu não entendo porque pesquisa de história toma tanto tempo.”

Muito pouco Zoe sabia sobre o dito projeto sobre Sydney ser iniciada na convenção de sua professora. Magia humana continuava um mistério estranho para mim – e uma maldição para os Alquimistas – mas Sydney estava aparentemente natural. Sem surpresas, já que Sydney era natural com tudo. Ela havia superado seu medo disso, assim como havia superado seu medo de mim, e agora estava completamente imersa em aprender o ofício de sua simplória, porém amável, professora, Jackie Terwilliger. Dizer que os Alquimistas não gostariam disso era um eufemismo. Na verdade, era uma disputa acirrada no que mais os irritaria: aprender as artes misteriosas ou ficar com um vampiro. Seria quase cômico, se eu não me preocupasse que os Alquimistas fanáticos poderiam fazer algo terrível com Sydney se ela for pega. Era por isso que Zoe em seus calcanhares tornou tudo mais perigoso ultimamente.

“Porque é a Sydney” disse Eddie do banco traseiro. Pelo espelho retrovisor, pude ver um sorriso fácil em seu rosto, embora haja sempre um olhar afiado enquanto ele verificava o mundo para o perigo. Ele e Neil haviam sido treinados pelos guardiões, uma organização dampir de durões que protegiam os Moroi. “Dar cem por cento numa tarefa é moleza para ela.”

Zoe sacudiu a cabeça, não satisfeita como o resto de nós.“É apenas uma aula estúpida. Ela só precisa passar.”

Não, eu pensei. Ela precisa aprender. Sydney não simplesmente engolia conhecimento para o bem de sua vocação. Ela fazia isso porque amava. E o que ela não amava mais que se perder numa agonia acadêmica na escola, onde ela poderia se aprender o que quisesse. Ao invés, ela teve que nascer numa família de negócios, pulando quando os Alquimistas mandavam novos trabalhos. Ela já havia se formado no colégio, mas levava seu segundo último ano tão seriamente quando o primeiro, ansiando para aprender tudo o que podia.

Um dia, quando tudo isso estiver acabado e Jill estiver salva, fugiremos de tudo. Não sabia para onde, nem como, mas Sydney resolveria essa logística. Ela escaparia do aperto dos Alquimistas e se tornaria Doutora Sydney Sage, PhD, enquanto eu… bem, faria alguma coisa.

Senti uma pequena mão em meu braço, olhei brevemente para baixo e ver Jill sorrindo simpaticamente para mim, seus olhos cor de jade brilhando. Ela sabia no que eu estava pensando, sabia das fantasias que eu frequentemente me perdia. Dei-lhe um sorriso amarelo de volta.

Nós dirigimos através cidade, da periferia de Palm Springs para a casa de Clarence Donahue, a única Moroi tola o bastante para viver neste deserto até que eu e meus amigos aparecêssemos no ultimo outono. A velha Clarence é meio maluca, mas uma muito legal que recebeu um grupo desorganizado de Morois e dampiros e permitiu usar seu alimentador/mordomo. Morois não precisam matar por sangue como os Strigois, mas nós precisávamos nos alimentar pelo menos umas duas vezes por semana. Felizmente, havia muitos humanos no mundo contentes em provê-lo em troca de uma vida baseada na alta dose de endorfina que uma mordida de vampiro possuía.

Encontramos Clarence na sala de estar, sentado em sua grande poltrona de couro utilizando uma lupa pra ler algum livro antigo. Ele ergueu os olhos para nossa entrada, assustado. “Aqui numa quinta! Que surpresa agradável!”

“Hoje é sexta, sr. Donahue.” Disse Jill gentilmente, abaixando-se para beijar sua bochecha.

Ele a olhou com carinho. “É? Vocês não vieram aqui ontem mesmo? Bem, não importa, Dorothy, tenho certeza, ficara contente em acomodar vocês.”

Dorothy, sua velha governanta, parecia bem acomodada. Ela havia ganhado na loteria quando Jill e eu viemos para Palm Springs. Morois mais velhos não tomam tanto sangue quanto os mais novos, e enquanto Clarence poderia ainda dar-lhe algum barato vez ou outra, as visitas frequentes de Jill e minhas a deixa próxima de um barato constante.

Jill alcançou Dorothy. “Posso ir agora?” A velha senhora assentiu ansiosa, e as duas deixaram o cômodo para um local mais reservado. Um olhar desgostoso passou pelo rosto de Zoe, mas ela nada disse. Ver sua expressão e como ela sentou longe de tudo era tão parecido com antiga Sydney que quase me fez sorrir.

Angeline estava praticamente pulando de um lado a outro no sofá. “O que tem pro jantar?” Ela tinha um sotaque sulista diferente por ter crescido numa comunidade rural nas montanhas de Morois, dampiros e humanos, que eram os únicos que eu conhecia que viviam livremente juntos e casados. O resto de suas respectivas raças os via com uma espécie de mistura de horror e fascinação. Por mais atraente que essa abertura fosse, viver com eles nunca passou por minha mente nas minhas fantasias com Sydney. Odiava acampar.

Ninguém respondeu. Angeline olhou um por um. “Bem? Por que não há comida aqui?” Dampiros não tomavam sangue e podiam comer comida normal de humanos. Morois também precisavam comer esse tipo de comida, embora não na mesma quantidade. Precisava de muita energia para manter aquele metabolismo ativo dos dampiros.

Esses encontros regulares meio que se tornaram um jantar em família, não apenas para o sangue como também. Era um jeito legal de fingir que levávamos uma vida normal. “Sempre tem comida” ressaltou, caso nunca tivéssemos notado. “Eu gostei da comida indiana que tivemos no outro dia. A massala ou sei lá. Mas não sei se deveríamos voltar lá mais até que comecem a chamar comida Nativa Americana. Não é muito educado.”

“Sydney geralmente toma conta da comida” Disse Eddie, ignorando a maneira familiar e cativante de Angeline divagar.

“Não geralmente” Eu corrigi “Sempre.”

Angeline virou os olhos para Zoe. “Por que você não pegou algo pra gente?”

“Porque esse não é meu trabalho” Zoe ergueu sua cabeça alto. “Nosso trabalho aqui é manter o disfarça de Jill e ter certeza de que ela esteja fora do radar. Não é meu trabalho alimentar vocês.”

“De que sentido?” Indaguei. Eu sabia perfeitamente que era uma coisa maldosa em se dizer a ela, mas não pude resistir. Demorou um instante para ela entender o duplo significado. Primeiro era ficou pálida, então ficou vermelha de raiva.

“Nenhum deles! Não sou responsável por vocês. E nem Sydney! Eu não sei por que ela sempre toma conta desses assuntos por vocês. Ela deveria estar apenas lidando com coisas essenciais para a sobrevivência de vocês. E ligar para pedir uma pizza não é uma delas.”

Eu fingi um bocejo e me inclinei para trás no sofá. “Talvez ela tenha se tocado quando estamos bem alimentados vocês duas não parecem tão apetitosas”

Zoe estava horrorizada demais para responder, e Eddie me lançou um olhar seco. “Chega. Não é tão difícil pedir uma pizza. Eu ligo.”

Jill estava de volta na hora que terminamos a ligação, um sorriso satisfeito em seu rosto. Aparentemente ela testemunhou a troca. O laço não era o tempo todo, mas parecia estar forte hoje. Com o dilema da comida acertado, acabamos que caímos numa surpreendente camaradagem. As coisas estavam inesperadamente cordiais entre Angeline e Eddie, a despeito de um recente e desastroso surto de namoro. Ela seguiu em frente e agora fingia estar obcecada com Neil. Se Eddie ainda estava magoado, não demonstrava, mas era típico dele. Sydney disse que ele estava secretamente apaixonado por Jill, outra coisa na qual ele era bom em esconder.

Eu poderia aprovar isso, mas Jill, assim como Angeline, fingia estar apaixonada por Neil. Era apenas fingimento das duas garotas, mas ninguém – nem mesmo Sydney – acreditava em mim.

“Você está bem com o que pedimos?” Angeline perguntou a ele “Você não pediu nada.”

Neil balançou a cabeça, sua expressão impassível. Ele mantinha seu cabelo escuro num corte dolorosamente curto e eficiente. Era o tipo de coisa sem sentido que os Alquimistas teriam adorado. “Não posso perder tempo discutindo coisas triviais como pepperonis e cogumelos. Se vocês tivessem ido a minha escola em Devonshire, vocês entenderiam. Em uma das minhas aulas do segundo ano, eles nos deixaram sozinhos nos pântanos para nos defendermos sozinhos e aprender habilidades de sobrevivência. Passe três dias comendo galhos e urze, e você aprende a não reclamar sobre nenhuma comida que chegar a você.”

Angeline e Jill balbuciaram como acharam isso a coisa mais rude e viril que já haviam ouvido. Eddie usava uma expressão que refletia a minha, intrigado se esse cara era tão sério como parecia ou apenas um gênio com algumas frases dignas de impressionar.

O celular de Zoe tocou. Ela olhou para a tela e pulou em alerde “É papai” sem olhar para trás, ela atendeu e saiu da sala.

Eu não era de ter premonições, mas um arrepio desceu minha espinha. O Sage-pai não era do tipo caloroso e preocupado que ligava para dar oi no horário de trabalho, quando sabia que Zoe estava fazendo sua coisa Alquimista. Se algo aconteceu para ela, algo aconteceu para Sydney. E isso me preocupava.

Eu mal prestei atenção no resto da conversa enquanto contava os segundo para o retorno de Zoe. Quando ela finalmente voltou, seu rosto pálido indicou que eu estava certo. Algo ruim tinha acontecido.

“O que foi?” exigi saber “Sydney está bem?” Tarde demais percebi que não deveria ter demonstrado preocupação especial com Sydney. Nem mesmo nossos amigos sabiam sobre eu e ela. Felizmente as atenções estavam voltadas para Zoe.

Ela sacudiu sua cabeça, seus olhos grandes em descrença. “Eu… eu não sei. São os meus pais. Eles estão se divorciando.”

Texto Original.


Paula Juliana.

Nenhum comentário:

Postar um comentário