terça-feira, 5 de julho de 2016

Resenha: Uma Canção para a Libélula - Parte I - Juliana Daglio

Resenha: Uma Canção para a Libélula - Parte I - Juliana Daglio
Classificação: 5/5 ♥ Favorito 

Sinopse - Uma Canção para a Libélula - Parte I - Juliana Daglio
Era uma comum primavera numa fazenda qualquer, mas um encontro inusitado aconteceu: a Menina e a Libélula se viram pela primeira vez. Assombrada por um medo irracional da Morte, a Menina é marcada por esse encontro para o resto de sua vida. Compõe então uma canção em seu piano, homenageando a misteriosa libélula. Os anos se passaram, Vanessa vivia em Londres e tinha a vida cercada por seu iminente sucesso como pianista, porém, algo aconteceu, mudando seu destino: Uma doença, uma viagem e um reencontro.  Vanessa precisará encarar fantasmas que sequer lembrava um dia terem assombrado sua vida, tendo de relembrar a morte do irmão e reviver seu conflito com a mãe. E mais importante e mortal, conhecer a grande antagonista de sua vida, a quem chama de Vilã Cinzenta.  De Londres a São Paulo, dos Palcos aos Lagos. “Uma canção para a Libélula” é a história de uma alma perdida e de sua busca por quebrar o casulo de sua existência, para só então compreender o sentido da própria vida. Este livro é um profundo mergulho em uma mente nebulosa, permeada por lagos obscuros e pela inusitada morte; não havendo sequer esperanças. 

''Já vi os olhos da menina brilharem, as asas da libélula refletirem discretamente as cores do arco-íris, mas nunca as duas coloridas. Se fosse um quatro, diria que o pintor guardou a melhor parte para o final e acabou ficando sem tinta. No entanto é uma imagem, e se move dentro da minha mente sem que eu tenha nenhum controle sobre ela. Não são em sonhos, nem em devaneios, eu simplesmente a vejo, num piscar de olhos, num trocar de canal na televisão, num intervalo de uma nota musical, ou me alcança quando uma rajada chata de vento vira, sem eu querer, a página do livro que eu estou lendo.''

Beleza. Inocência. Mistério. Lembranças. Solidão. Medo!


Uma história instigante, que deixa o leitor curioso do começo ao fim, uma história 
emocionante, que sabe mexer com os sentimentos dos leitores, que conduz, envolve, vai lhe levando até à beira do precipício, deixa você naquela linha entre cair e se salvar e sem mais, sem menos, te joga! Uma Canção para a Libélula, é assim... INTENSO! Avassalador, ele te conduz por meio da história da menina Vanessa, te faz passar por todos seus sentimentos, suas angustias, seus medos. Faz você entender o valor da vida!   
A autora nacional Juliana Daglio, apresenta nessa primeira parte - de duas, uma história que te fez refletir, uma canção em palavras, é quase lírico de tão bonito! 
Dizer que me envolvi com essa história é pouco!  

'' Quando você acordar, eu estarei aqui.''

Ela sentia medo! Ela, a menina de cabelos de algodão, sentia dentro do seu coraçãozinho uma sombra, uma presenta, uma angustia, que não conseguia entender! Uma menina triste. Um paisagem bonita. Um lago. Um pai amoroso, gentil, e um triste homem! Uma melancolia no ar! Melodias de piano! Asas sem cores! Asas com cores! Cores que não existem mais no mundo da triste menina! Um encontro repentino! Um rumo a seguir! Uma tragedia! Uma separação...
Tormento, angustia, música, melancolia, segredos! Um coração despedaçado pela vida. Uma alma quebrada! 
E a volta para onde tudo começou!

''A Libélula ficou ainda mais atraída pelo som vindo da menina e se aproximou. As duas ficaram se olhando por um tempo, sem censura, apenas presas entre si como os seres celestiais se prendem às preces dos mortais.
Foi aí que a cena foi registrada para sempre. Nunca se perdeu apenas estagnou-se no tempo como uma lembrança incompleta, um filme ainda não revelado, uma fotografia pela metade. Uma canção sem acordes.''

O Prólogo, começa contando uma parte do passado de Vanessa. O tão falado encontro entre a menina e a Libélula. Lá a autora mostra que o livro é forte e que veio para mexer com você, na segunda página do livro, já estava com lágrimas nos olhos e o coração muito emocionado. 

A Obra começa mesmo, no primeiro capitulo apresentando a Vanessa adulta. 24 anos, Morando em Londres. Uma pianista famosa e renomada. A presença da Tia mãezona, do Tio, de sua prima, e de um namorado. Família, fama, sucesso... Seria a vida perfeita? 

A vida dessa talentosa menina está longe de ser perfeita. Um pedido de casamento e dois quase infartos de seu pai, fazem que Vanessa tenha que voltar para o Brasil, o lugar que ela tinha fugido quando criança. 
E principalmente o passado volta para assombra-la. Ela terá que reencontrar com sua mãe!

O contexto e os acontecimentos logo dos primeiros capítulos, nos deixam perguntas!
O que aconteceu de tão terrível com essa família? O que aconteceu com Vanessa de tal forma que ela se fechou para sua própria vida? O que faria uma mãe ser vista como uma horrível inimiga?  

Cenas conectadas. Pistas. O relógio, o lago, a hora, o sangue, o piano! O que será que estão tentando contar? Estaria tudo entreligado?

'' As palavras ruins penetravam em mim, Empurram com força a tampa de um baú de sentimentos enterrados no mais profundo de minha alma.''

Vanessa é uma personagem complexa. As suas relações sociais sempre giravam em torno de não ser desagradável. Sorrisos forçados, abraços falsos, felicidade aparente. Ela preferia os livros, poucos amigos. As suas partituras. Mas jamais era grosseira. Era gentil. Amava sua Tia, que sim! Era sua verdadeira mãe de coração. Sua prima, tão brilhante e espontânea, o completo posto dela. Acreditava que quem nunca espera nada de ninguém... nunca se desaponta!

''Você tem a si mesma, e isso basta.''

Porém, Vanessa se sentia vazia, era um vazio que sempre esteve presente nela, juntamente com a presença cinza. Dominada pelo medo, reprimia suas emoções, sua tristeza, sua solidão.
Vanessa era apática, pálida para sua própria vida.

''Aquela presença era minha velha conhecida. Eu observava as pessoas felizes enquanto ela me observava. As princesas  dos livros cor-de-rosa eram assombradas pela bruxa má, rainha má, ou madrasta má. Eu tinha uma mãe má, mas ela não era minha vilã como aquelas dos livros. Era como se a vilã fosse a presença cinza, era ela quem fazia tudo acontecer... Minha vilã cinzenta.
- Foi um erro voltar aqui - pensei em voz alta.''  

A Obra aborda a Depressão
Essa presença silenciosa e destrutiva. As pessoas confundem a depressão com loucura, quando ela é uma doença. Uma doença que muda a pessoa, que faz elas se transformarem na sombra delas mesmas. Um fantasma do que um dia foram. Uma morte em vida!

O tema é abordado brilhantemente. Os sentimentos são palpáveis, as descrições expressivas, repletas de cargas, sentimentos, medos, segredos, fantasmas e histórias.
Ninguém tem noção do quanto uma pessoa pode guardar dentro de si mesma! 

''Quando uma dor pede para levar embora suas lembranças ruins, ela leva também a parte boa. Arranca as raízes de tudo que você lembrava ser. Foi isso que me aconteceu. A dor me levou a parte boa de minha infância, e só deixou um vazio enegrecido para trás. Eu fora feliz em minha maneira silenciosa. Uma menina quieta e sensível que compunha músicas e não sabia como desenhar as partituras tendo que aprender sozinha.''

Falando sobre os personagens!

Valéria. A mãe de sangue de Vanessa. Com certeza saudável não é! É uma doente, além do seu vício em álcool, vejo mais que doença nela, ela é egoísta, vaidosa, manipuladora, uma daquelas pessoas que trazem somente coisas ruins e pesadas para os outros ao seu redor.
Mas principalmente ela é CRUEL. E a crueldade dela machuca, choca e mexe com você quando está lendo.     

Marcos. O pai de Vanessa. Esse homem é imundado pela culpa. Marcos se culpa por ter deixado Vanessa ir embora, quando ela mais precisou dele, depois da tragedia que aconteceu com essa família, as coisas ficaram pesadas e ele teve que escolher entre ajudar a mulher ou a filha. A filha acabou indo ser criada por sua irmã. E agora Marcos tenta concertar seus erros. Depois de dois quase infartos, tenho que desabafar com vocês, que pensei que esse homem iria dar um ''treco'' durante a parte final. Foram muitas emoções pesadas, e olha! Se não infartou ali, não infarta mais! Eu gostei muito de Marcos. Ele é uma pessoa boa, Um homem gentil, que teve muito azar com seu destino e algumas más escolhas.

''Ao longo da vida nós percebemos que grande parte de nossos ideais são meros disfarces mentais, que as verdadeiras respostas estão submersas em uma camada misteriosa que separa nossa consciência de todas as verdades dolorosas.''

O LIVRO É LINDO! Ele trata de um tema pesado, mais é feito com uma sensibilidade e uma beleza que é muito difícil expressar em palavras. Um dos MELHORES livros que li esse ano. Com certeza. Acho que qualquer pessoa, mesmo que nunca tenha tido depressão, vai se identificar ou se sensibilizar em alguma parte da obra. Eu senti a angustia da personagem durante a leitura, senti seu medo, sua culpa, sua solidão. E doeu, como se fosse em mim mesma. Esse é um livro que faz você refletir sobre sua vida, mas não me deixou triste, ele me fez agradecer por tudo que eu tenho, ele me fez enxergar como temos a força e o desespero dentro de nós. A libélula e o cinza... A vilã cinzenta. Como podemos ser os grandes algoses de nós mesmos. Como o grande vilão pode estar dentro de você!  

Amei as metáforas, amei a linguagem poética, bonita, sensível. Sorri, me envolvi, chorei - chorei muito! Uma Canção para a Libélula, fala do significado da vida, do seu sentido. E de como cada pessoa tem a necessidade de encontrar o seu!   
Mais que indicado! LEIAM!

''As pessoas ficam impressionadas com os melhores.
Mas elas não sabem: eles são loucos; cheios de cicatrizes.
Eles caem, até o nada.
(...)
A vida havia ido embora de mim, enquanto isso a morte me sorria ao pé da escada. batia palmas à minha apatia.''

''Compreendi que sua alma procurava significado e não beleza.'' 

Paula Juliana

Nenhum comentário:

Postar um comentário